Um pouco da história de Piracicaba

Parte do documento manuscrito que registra a história da povoação de Piracicaba, desde os primeiros habitantes em 01 de agosto de 1767 até a mudança de margem do rio em 1784. Acervo da Câmara de Vereadores de Piracicaba.

Piracicaba já existia muito antes do homem branco conhecê-la. A história desse lugar que tem um rio fascinante não começa com um certo povoador. Essas terras e esse rio já estavam formados desde muito tempo. Infelizmente, a história do seu nascimento só começa a ser contada a partir da sua colonização. Pois é, ainda nos falta conhecer como se deu a ocupação desse território por séculos (talvez milênios) em que etnias ameríndias seminômades, por ventura, aqui tenham atravessado.

Entretanto, em meados do século 17 essas terras já eram conhecidas pelo homem branco como um lugar possível de ser habitado e, tempos depois, com os avanços das entradas pelos sertões, o rio Piracicaba tinha todo o seu percurso desbravado, de maneira que, tanto o rossio quanto o rio foram se consolidando como importantes caminhos (e lugares de pouso) para se chegar a Cuiabá – região onde, por volta de 1718, se descobriu grande concentração de ouro.

Fosse pela terra (bandeiras) ou pelos rios (monções), Piracicaba era caminho para quem quisesse chegar até a região do ouro. As monções tinham a incumbência de abastecer a zona de ouro de Cuiabá com alimentos, armas, tecidos, sapatos, aguardente e todos os insumos necessários para os exploradores. Essa empreitada do homem branco até Cuiabá não era nem um pouco fácil e as mortes que se somavam tinham muitas causas: nos comboios, canoas se perdiam nas cachoeiras ou apodreciam por causa das chuvas; por falta de alimentos, muitos morriam de fome; as doenças eram diversas; as dificuldades práticas dos exploradores que pouco sabiam pescar e caçar, além do fato de eles próprios servirem de alimentos para animais ferozes. Somados a essas adversidades que os bandeirantes e monçoeiros encontravam em seu caminho estavam os próprios autóctones. 

Os indígenas paiaguás, habilidosos nas águas e, também, os caiapós e guaicurus faziam resistência severa ao homem branco conquistador. As embarcações eram constantemente assaltadas pelos legítimos donos da terra que destruíam inteiramente as expedições. Sob as flechas dos povos originários padeceram muitos desses sertanistas exploradores.

Infelizmente, entre 1733 e 1737 houve um processo de dizimação dos povos originários pelas fortes expedições de guerra. O extermínio indígena é o primeiro quadro nas proximidades de Piracicaba: de um lado a Coroa Portuguesa que oferecia a posse da terra mediante benfeitorias dos sesmeiros e de outro a população indígena, que tinha a sua história, a sua cultura e as suas vidas massacradas pelos brancos.

Em 1765, D. Luis António de Sousa Botelho Mourão, o 4º Morgado de Mateus, recebeu da Coroa Portuguesa a missão de aumentar o povoamento na Capitania Real de São Paulo, criando, para isso, freguesias e vilas em todo o extenso território da capitania. O Morgado de Mateus tinha, acima de tudo, um propósito militar, e é dentro desse contexto que surgiu a figura do conhecido Capitão António Correa Barbosa.

O Morgado de Mateus, então, enviou o Capitão Correa Barbosa para se fixar nos arredores do rio Piracicaba, nas proximidades do salto, na margem direita que, segundo se sabia, tinha ranchos, roçados, hortas e pomares. A essa altura e após a grande carnificina das sociedades indígenas, os primeiros habitantes de Piracicaba eram homens sertanejos, posseiros, pescadores e sesmeiros. Em 24 de julho de 1766, Correa Barbosa foi nomeado diretor e povoador de Piracicaba. Passado um ano, já no inverno de 1767, no primeiro dia de agosto, o capitão-povoador fundou, oficialmente, o povoado que, em menos de uma década, passou a se chamar Freguesia de Santo Antônio de Piracicaba.

Desde os primeiros anos em que por essas bandas chegaram os povoadores, a praça pública era o local oficial das festividades em honra dos santos e mártires da igreja. As missas quando cantadas possibilitavam a toda população uma razoável aproximação com a arte, embora ainda promovida dentro do espaço religioso cristão e com todas as restrições, silenciamentos e apagamentos que isso oferecia.

Nesse contexto, podemos considerar que as primeiras manifestações culturais do povoado e da freguesia de Piracicaba tiveram a música sacra como a principal linguagem artística.

Nunca é demais dizer que a senzala era também um lugar de culto, de cantoria e de dança dos povos escravizados trazidos de África ou nascidos de negras africanas. Além disso, para os povos pretos, o acesso às igrejas quando não era negado era bastante restrito. As festas religiosas e, mais tarde, as cerimônias cívicas se tornaram as primeiras fontes para o divertimento e os encontros sociais do povo branco nascido ou migrado para Piracicaba. Portanto, temos a Igreja e o Estado como sendo os primeiros promotores desses festejos.

Em um lugar no qual a povoação tinha pouca ou nenhuma instrução e o trabalho diário era conhecido como única forma de sobrevivência, a diversão em Piracicaba, no final do século 18, quando existente, estava sob a vigilância da Igreja e sua moral castradora. Por outro lado, nesse mesmo período, em outras regiões mais movimentadas do Brasil, pequenos teatros chamados de “casa da ópera” começavam a ser instalados. As casas das óperas tinham como objetivo tirar o teatro dos espaços sacros e inseri-lo em locais mais apropriados para representações – distante um pouco dos olhos de vigários e bispos.

Para ouvir música sacra do Brasil Colonial acesse o QR Code

Pelo o que se sabe, a nossa estreia na arte do teatro começou na metade do século 19 – quase cem anos após a fundação oficial de Piracicaba. O primeiro registro documental sobre teatro começa quando da construção da primeira sala de espetáculos, em 1853. Em lugares como Vila Rica e São Paulo, as casas da ópera já apresentavam espetáculos com uma certa regularidade.

Um dos motivos para esse começo tardio é a ausência de padres missionários na formação do povoamento de Antônio Correa Barbosa. Na história do Brasil é conhecido o fato de que os padres jesuítas foram os responsáveis por catequisar os indígenas através de encenações teatrais autorais. Por onde passavam os missionários da Cia. de Jesus sabe-se da existência de um certo tipo de teatro doutrinador e moralizante. Porém, os padres regulares foram expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal oito anos antes da fundação de Piracicaba por conta de um conjunto de fatos históricos que ficou conhecido como o Processo dos Távoras. A reforma pombalina na educação não previa o ensino que a Cia. de Jesus oferecia. Portanto, os padres jesuítas com o seu teatro catequético não estiveram presentes na fundação de Piracicaba. 

A segunda razão pela qual a Freguesia em seus primórdios não tenha desenvolvido nenhum interesse imediato pelo teatro se justifica também pela própria característica de povoamento de Piracicaba: aqui era um porto, um lugar de passagem. Os homens destas bandas estavam ocupados em auxiliar as empreitadas das conquistas do ouro nas minas de Cuiabá, o que afetou indiretamente a produção artística no geral, sobretudo, a teatral. É como se os homens e mulheres daquele tempo não tivessem tempo e disposição para os deleites estéticos, apenas cuidavam da vida militar e da sobrevivência por meio do trabalho. Entretanto, cometeríamos um erro se não imaginássemos que, mesmo com essas condições adversas, os povos escravizados (indígenas e negros) não pudessem ter seus momentos de diversão com seus batuques, cantorias, danças e rezas.

Como dissemos anteriormente, os primeiros habitantes das terras piracicabanas eram posseiros, sesmeiros e sertanejos que não tinham os mesmos hábitos culturais das províncias em que se concentrava um grande número de pessoas. Em nossa terra, os primeiros habitantes se dedicavam à lavoura, à pesca ou à agricultura de subsistência..

Em 1775, dez anos após a fundação oficial, somavam-se na freguesia cerca de 231 habitantes e 45 fogos (casas).

E essa é a terceira causa possível para a ausência de teatro entre nós naquele período.

O quarto e mais importante argumento para essa ausência é que na constituição da Freguesia, os primeiros legisladores da Província proibiam os divertimentos públicos. E Piracicaba tinha de obedecer. De todo modo, os governantes julgavam inconveniente toda manifestação artística que fosse ligada aos espetáculos (sejam eles de teatro ou de circo). Em compensação, em outras províncias, durante todo o século 16 e na primeira metade do século 17, os divertimentos populares eram as cavalhadas, os bailes, as encamisadas. No Rio de Janeiro, havia festejos cívicos quando da aclamação de algum rei português ou do nascimento de algum infante.

Portanto, nos primeiros cinquenta e cinco anos de Piracicaba colonial (1767 a 1822), os encontros coletivos, quando ocorriam, serviam às celebrações ocasionais das missas, de festejos religiosos de alguma data comemorativa do calendário litúrgico e de uma ou outra cerimônia cívica em razão da chegada de alguma autoridade à Freguesia.

Villa da Constituição (atual Piracicaba). Ofício de esclarecimento de Manoel Ferraz de Campos ao capitão Domingos Soares de Barros. 30 de Junho de 1823. Original nanquim em papel algodão. Arquivo Público do Estado de São Paulo.

A entrada no século 19 trouxe profundas mudanças nas ordens políticas e sociais do Brasil. Em 1808, desembarcou no Rio de Janeiro a Família Real portuguesa. Em 1822, foi proclamada a Independência do Brasil. E também no ano de 1822 Piracicaba recebia o título de vila (antes era freguesia) e passava a ter a sua autonomia administrativa e, como consequência direta disso, os homens da terra podiam criar suas próprias leis.

Em 10 de agosto de 1822, logo após a mudança de freguesia para vila, a primeira inauguração (antes mesmo da câmara e da cadeia) foi a do pelourinho público, que ficava localizado em frente à Igreja Matriz. O pelourinho era um forte símbolo da autonomia administrativa de um município do Brasil colonial, utilizado para suplícios e torturas de criminosos, homossexuais e escravizados que se rebelavam contra seu senhorio. Nessa ocasião, a nobreza, o clero e muitas pessoas da vila aplaudiram entusiasmadas o levantamento do pelourinho em Piracicaba.

Ilustração da primeira

Matriz de Santo Antonio.

Ilustração de

Andrei Bressan e Marcelo Maiolo.

Igrejas - Piracicaba: IPPLAP, 2012.

O teatro no Brasil a essa altura passou a ser representado em espaços fechados – o que não significa que a cena eminentemente popular do teatro de rua não acontecesse. As inúmeras casas de ópera edificadas nas cidades brasileiras durante a segunda metade do século 18, embora sem a intervenção direta do governo na sua construção, tiveram sempre o apoio dos homens de alto poder econômico, os aristocratas das vilas.

Foi o monarca que mandou construir em 1813 o Real Theatro de São João, que mais tarde passou a se chamar Imperial Theatro São Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro. A construção do Real Theatro de São João, determinada em decreto por D. João, visava a ampliação dos lugares sociais de diversão para a elite local, ou seja, um teatro que estivesse à altura da Corte, substituindo, assim, as casas de ópera. E foi nesse teatro que o rei, sua família e os nobres assistiram a muitos espetáculos vindos d’além-mar, principalmente Portugal. A maior diferença na arquitetura desses dois tipos de edificações se refere às suas dimensões: as casas de ópera abrigavam cerca de duzentas pessoas, enquanto os teatros comportavam mais de mil assentos.

Em Piracicaba, o alvorecer do século também trouxe consigo a necessidade de um espaço público de divertimento no qual a população pudesse receber espetáculos de música de orquestra e peças de teatro. Em 20 de julho de 1853, a Câmara local solicitava à Assembleia Provincial a suspensão da lei que condenava com multas a representação de espetáculos de diversão. Nota-se, por esse registro, que a vila não só não possuía uma casa de espetáculos como também proibia representações teatrais e outros espetáculos.

Entretanto, uma ressalva se faz necessária: os primeiros registros de acontecimentos da Festa do Divino na vila são de 1826. Embora o festejo em honra ao Divino Espírito Santo apresente muita teatralidade, ainda assim é uma festa de pertença religiosa. Além das entremeses (um tipo de teatro), outros espetáculos de diversão que necessitavam de licença eram a corrida de touros, as cavalhadas, o circo, as óperas, os bonecos.

Foi, então, que em 1853 o teatro em Piracicaba também deu os ares de seu surgimento. Começou, nesse ano, a construção da primeira casa de espetáculos da cidade: a Casa do Theatro. Avila crescia de uma maneira acelerada. Em 1866 já era possívelcontabilizar 20 mil habitantes. A população começava a crescer e as constantes idas dos abastados a Porto Feliz (capital cultural da época) já não agradava aos moradores.

O Capitão Ricardo Leão Sabino, em 29 de fevereiro de 1852, pediu aos vereadores autorização para construir um teatro. Somente um ano depois tivemos notícias da construção da Casa do Theatro, ou seja, a proibição de realizar teatro já havia sido derrubada nos códigos de postura. As informações que nos chegaram dão conta de que havia poucos espetáculos nesse espaço, sobretudo, devido à sua má estrutura e conservação, tanto que 1865 ele foi posto abaixo. A elite frequentadora do espaço promovia saraus musicais e literários. Algumas comédias populares também foram representadas na Casa do Theatro. Segundo consta, o público levava suas cadeiras e tinha que dividir o espaço com os morcegos que davam voos rasantes. A Casa do Theatro teve curta duração, pouco mais de dez anos.

Nunca é demais lembrar que, no Código de Posturas da vila, existiam regras claras para que os escravos não andassem pelas ruas depois do toque de recolher que era dado pelos sinos da igreja às nove da noite, horário em que as tabernas também deveriam estar todas fechadas, ou seja, diversão somente para os homens brancos que, muitas vezes, promoviam saraus e apresentações musicais no interior de suas residências.

Piracicaba já não era tida como uma cidade provinciana e precisava de um teatro que correspondesse ao seu forte crescimento.

A cidade já tinha cerca de 30 ruas, 1300 casas, 23 lojas de fazendas (tecidos), lojas de calçados e armarinhos, 170 armazéns de secos e molhados, 5 restaurantes, 7 açougues, 3 hotéis e 2 hospedarias, 3 padarias e 6 farmácias. O café era o maior produto de exportação da cidade, cerca de 4.500 toneladas/ano, seguido do açúcar com mais de 1.050 toneladas/ano.


Barão de Rezende

Lembrança de missa de 7º dia (1909).

Acervo do Museu Histórico

e Pedagógico Prudente de Moraes.

Além disso, o pioneirismo na educação fez com que a cidade chegasse a ter 11 escolas primárias para homens e 4 para mulheres, diversas sociedades literárias, beneficentes e recreativas, 1 biblioteca com 2 mil volumes mantida pelo Club Piracicabano, 2 jornais, a Gazeta e o Piracicabano, e o transporte da Ferrovia Ytuana.

O Theatro Santo Estevão teve a sua pedra fundamental colocada em 1871. Em 1876, inaugurou-se dentro do Theatro o Gabinete de leitura, espécie de primeira biblioteca da cidade. Um dos proprietários mais importantes que o teatro teve foi o Barão de Rezende. Antes, porém, era propriedade de uma tal Sociedade Fundadora do Teatro, que tinha entre seus membros homens abastados e influentes, incluindo o pintor Miguel Arcanjo Benício Dutra.

O Barão de Rezende nasceu e estudou no Rio de Janeiro. Formou-se em Direito, pela Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, e no mesmo ano de sua formação se fixou em Piracicaba, chamada à época de Vila Nova da Constituição. Barão de Rezende chegou a Piracicaba com 23 anos de idade e se casou dois anos depois. Herdou de seu pai, o Barão de Valença, um extenso território que, somado ao da família de sua esposa, filha do Barão de Serranegra, formava uma área hoje localizada entre a região da Vila Rezende e a da Nova Piracicaba. Por suas andanças pelo Rio de Janeiro e por São Paulo (que a essa altura já tinha inúmeros teatros edificados), e depois de tomar contato com a cultura dessas grandes cidades, o Barão de Rezende importou seus costumes. E o teatro foi um deles. Nesse contexto ressurgiu, após reformas, o Santo Estevão.

O Barão de Rezende, nome de Estevão Ribeiro de Souza Rezende, era um nobre aristocrata, amigo de Pedro II, a quem hospedava em sua própria residência. Em 1886, o Imperador e a comitiva real ficaram três dias em Piracicaba. Às vésperas da Proclamação da República, Dom Pedro II não hesitava em conferir títulos nobres aos cidadãos, como uma tentativa de manter o diálogo com os monarquistas de cada cidade.

O Theatro Santo Estevão até a sua demolição, em 1953, reinou absoluto no coração da cidade, com inúmeras festas cívicas, saraus de arte, concertos e peças teatrais. No dia 14 de maio de 1888, dia seguinte à libertação dos escravos, o Theatro Santo Estevão foi palco de uma imensa festa em comemoração à liberdade. A trupe A. de Faria apresentou, na ocasião, a peça O Tipo Brasileiro, do carioca Joaquim José de França Júnior, escrita seis anos antes dessa representação e com Xisto Bahia, um famosíssimo ator negro da época, no elenco. Sobre a vinda de Xisto Bahia a Piracicaba, a Gazeta de Piracicaba publicou:

Xisto é um cavalheiro extraordinário: reúne ao dom de uma fisionomia, um aspecto, singulares, fortes, um tom de melancolia, que cativa e no sexo amável abre uma brecha imensa, como a uma muralha de pedra não o faria a maior artilharia.


O ator Xisto Bahia. Autoria desconhecida.

Sem data. Arquivo Nacional.



Notícia de espetáculo no ano de 1876

O Piracicaba, 06/05/1876.

Em agosto de 1888, o Santo Estevão recebia a apresentação de um grupo de teatro amador da cidade. O Manduca era uma revista de costumes, de autoria do jornalista Joaquim Luiz da Silva Lopes, o Titico. A comédia de costumes era um gênero muito típico da época, sobretudo, no Rio de Janeiro com Arthur Azevedo. Titico, em Piracicaba, escrevia e ensaiava as suas peças, numa época em que a figura do encenador ainda era desconhecida no Brasil. O palco do Santo Estevão recebia grupos de outras cidades e amadores locais.

É o caso da apresentação da peça A Honra de Um Taverneiro, em 05 de novembro de 1888, escrita pelo ator e dramaturgo carioca Francisco Correia Vasques. Era comum que os conteúdos dessas peças retratassem o meio urbano e burguês que estava em formação.

Duas informações a título de curiosidade: primeira, as poucas vezes que as mulheres apareciam em público era para ir à missa ou ao teatro; segunda, a luz elétrica somente chegou a Piracicaba em 1893, portanto, tanto as residências quanto o teatro eram iluminados por querosene e velas.

O Theatro Santo Estevão passou por duas grandes reformas e uma reconstrução. Sua versão definitiva data de 1906, com projeto de Carlo Zanotta, pintura e decoração de Bonfiglio Campagnolli, mobiliário de João Graner e pano de boca pintado por Joaquim Dutra.

Planta da cidade de Piracicaba em 1916. Acervo do Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes.

Proclamada a República em 1889, Piracicaba entrou no século 20 com intensas e regulares atividades teatrais. Novos espaços de diversão e lazer começaram a surgir na cidade que, em 1911, já contava com 40 mil habitantes. Com a proclamação da República, o Estado e a Igreja separaram suas estruturas administrativas – o que tornou, em tese, as possibilidades artísticas mais livres e frequentes.

Na República Velha, o Theatro Santo Estevão era o grande espaço promotor do teatro. Os ingressos eram vendidos a 6 mil réis e sempre contava com a plateia lotada.

Atrizes como Cinira Polônio, Pepa Ruiz, espetáculos como O esfolado, de Raul Pederneiras, o famoso A Capital Federal, de Artur Azevedo, Otelo, de Shakespeare faziam parte da programação do teatro. Havia também as Noitadas Líricas que eram festas dos estudantes promovidas e dirigidas pelo educador Honorato Faustino. O gênero teatral a que os piracicabanos mais assistiam eram as operetas. Tivemos, no começo do século, muitos atores e atrizes na cidade, tais como: Irene Zanotta, Dulce de Morais Barros, Aurora Gerez, Maria Amélia de Aguiar, Maria Antonieta Dias, Terezinha Silveira Melo, Irene Müller, Ciloca Sampaio, Oscar Brizola, Dorival Minhoto, Ângelo Perez, Elias de Mello Ayres, João Borges de Sampaio.

Eram constantes os saraus de arte beneficentes promovidos por Dedé Rezende (Lydia Sophia de Souza Rezende), filha do Barão de Rezende. Jogos de cartas, como manilha e voltarete, e festas religiosas, como a Septuagésima, Cinzas, Páscoa, Ascensão, Espírito Santo, Advento, também compunham a vida social e cultural da cidade. A urbanização propiciava o surgimento de todos esses novos tipos de lazer.

Por conta da imigração, formaram-se muitas sociedades representativas dessas comunidades, além dos clubes recreativos, como a Sociedade Dançante Juvenil, Verein Frohsinn, Recreio Familiar, dentre outras, que compunham esse panorama. Na Câmara dos Vereadores e na Intendência (prefeitura), a elite se revezava no poder. Piracicaba era uma cidade com poucos automóveis. Dividiam espaço pelas ruas os carros de bois, as vacas leiteiras e os vendedores ambulantes.

Em 3 de setembro de 1910, foi inaugurada a Universidade Popular de Piracicaba, com sede no Theatro Santo Estevão. A Universidade Popular dispunha de uma biblioteca pública onde se realizavam conferências, saraus musicais e exposições de arte.

À elite local eram frequentemente disponibilizados espaços nos jornais para discursos, notícias de seus interesses e propagandas de consumo para a classe abastada. Como pudemos perceber, os lugares sociais de diversão se restringiam à burguesia da cidade.

Nos jornais eram frequentes as notícias sobre os espaços que essa classe poderia frequentar, excluindo os lugares que prejudicassem a imagem da elite. Entramos na Belle Époque piracicabana e com ela as distinções sociais começavam a mostrar as suas piores faces. O Clube Piracicabano, depois Clube Coronel Barbosa, desde o início do século era a vitrine para a classe economicamente privilegiada. Não é desconhecida pelos piracicabanos mais antigos a fama do Clube Coronel Barbosa no que se refere à proibição da entrada de homens e mulheres negros em suas dependências. Para uma classe menos favorecida economicamente os ingressos eram inacessíveis.

Na história do teatro brasileiro, a representação do indígena, da mulher e do negro foi, quando não excluída, caricaturada. A tradição do teatro clássico ocidental desde os atenienses denota que o palco sempre foi ocupado por homens. Como sabemos, os papéis femininos sempre foram representados por homens que utilizavam máscaras.

A tradição da cena piracicabana não foi diferente, foi construída em sua maioria por homens e brancos. Excluindo-se os abastados, as diversões dos homens e mulheres negras eram inexistentes. Nos jornais locais, as notícias sobre negros ficavam na sessão policial. Qualquer negro se estivesse andando pelas ruas sem um motivo convincente seria preso. E, mesmo dentro de manifestações promovidas por negros, a prisão e o controle eram constantes, como podemos notar pelas notícias de jornais do início do século 20 – o que comprova mais uma vez que a abolição não acabou com os preconceitos raciais.

Esses eram os espaços destinados às pessoas pretas nos jornais de Piracicaba na segunda metade do século 19.

[...] A Camara – Mas si nós prohibimos o jogo na festa de Santa Cruz é precisamente porque queremos evitar prejuízos ás pessoas que, por seus pouco recursos, não estão em condições de perder. Os que jogam no Club Republicano são pessoas que podem perder sem dar prejuízo a terceiros; mas as que jogam nas festas de Santa Cruz não só prejudicam a si mesmos como ainda prejudicam aos outros, aos comerciantes, aos fornecedores, etc. cujas contas deixam de pagar [...] (Jornal de Piracicaba: “Festa de Santa Cruz”, 05/05/1903, p. 2).

Por estar promovendo desordens em um samba, que se realizou domingo ultimo, foi preso João Jacintho e também Benedicto Rodrigues e José Ferreira de Camargo (Jornal de Piracicaba: “Desordeiros”, 08/01/1901, p. 2).

Informan-nos que ante-hontem a noite, á rua da Gloria, um bando de indivíduos um tanto alcolizados promoviam desordem, jogando capoeira e dizendo palavras obcenas (Jornal de Piracicaba: “Desordeiros”, 13/01/1903, p. 2).

Como vimos, as atitudes ideológicas, na prática, reivindicavam uma distinção social: de um lado, fazendeiros, profissionais liberais, negociantes, políticos e intelectuais criavam seus espaços de lazer e diversão, e, de outro, para homens e mulheres negros e toda a gente pobre esses espaços eram restritos, assim como na educação formal.